Creedence Clearwater Revival
Tudo na vida tem um começo. E o meu começo no rock foi, dentre outras poucas bandas que ouvi nos meus primeiros anos, CCR. A banda californiana surgiu em 1959 com o nome The Blue Velvets, formada originalmente por John Fogerty (vocal, harmônica e guitarra), Stu Cook (baixo) e Doug "Cosmo" Clifford (bateria), que eram amigos de escola. Logo Tom (originalmente vocalista, posteriormente guitarra e vocais de apoio), irmão de John, assumiu os vocais do grupo e gravaram três singles com essa denominação. Chegaram a trocar de nome provisoriamente para The Visions e posteriormente The Golliwogs, mas em 1967 trocaram para o marcante nome da banda, que advém da junção de quatro palavras: Creed (credo, fé) com Credence (em homenagem a um amigo de Tom, Credence Nubal) + Clearwater (tirado de um comercial da bebida Olympia Beer) e Revival por remeter aos anos que eles já tocavam juntos até aquele momento.
O primeiro disco de fato da banda veio só em 1968, quase nove anos após os amigos tocarem juntos, e já com John nos vocais principais, com sua voz marcante. A banda trouxe consigo várias influências do folk e southern rock, bem como o swamp rock, o folk tradicional e até mesmo o hard rock e o rock psicodélico (esse último mais no início da banda). Chegaram a tocar no festival Woodstock em 1969 (a apresentação contudo não apareceu no filme do evento porque a banda considerou a qualidade de gravação muito ruim), embora existam discos e filmagens bootlegs por aí. Lançaram oficialmente sete álbuns de estúdio entre 1968 a 1972 (além de um split com a banda Jeronimo), todos premiadíssimos e bem vendidos, embora ao longo dos anos o ambiente interno da banda tenha tido muitas tensões, levando à saída de Tom da banda antes das gravações do sétimo e último álbum, e o fim da banda pouco depois do lançamento deste.
Tom Fogerty faleceu em 6 de setembro de 1990, devido complicações da AIDS que ele contraíra numa transfusão sanguínea anos antes. John continuou em carreira solo, sendo a mais bem sucedida de todos os ex-CCR. Já Stu e Doug chegaram a formar o Creedence Clearwater Revisited, uma banda "homenagem" com a qual fazem excursões pelo mundo tocando sucessos antigos da banda.
Minha experiência com o CCR advém de minha mãe, que tinha os LPs Willy and the Poor Boys e Cosmo's Factory, dois grandes sucessos da banda, que me fizeram começar a curtir o estilo, minha mãe sempre que estava meio triste e "alta" (antes de se converter ao Evangelho ela consumia muita bebida) sempre punha na vitrola "I Heard it Through a Grapevine", uma experiência bem insana para um garoto como eu ouvir uma música longa dessas e bem forte. Ah sim: e o primeiro disco da banda foi lançado EXATAMENTE VINTE ANOS antes do meu nascimento, a 28 de maio de 1988. Mais identificado com eles impossível!
Procure no Spotify/Deezer/Youtube Music os discos a seguir e acompanhe durante a review:
01 - I Put a Spell on You (Screamin' Jay Hawkins cover)
02 - The Working Man
03 - Suzie Q (Dale Hawkins cover)
04 - Ninety-Nine and a Half
05 - Get Down Woman
06 - Porterville
07 - Gloomy
08 - Walk on Water
Bônus:
09 - Call It Pretending [*] (lado B do single "Porterville")
10 - Before You Accuse Me [1968 Outtake]
11 - Ninety-Nine and a Half [Live]
12 - Suzie Q [Live]
O menos lembrado disco da banda, muito por conta talvez da sonoridade mais psicodélica que os sucessores, visível até pelo visual da banda na capa. Entretanto é um ótimo disco, com passagens incríveis, como o cover de I Put a Spell on You (que ganhou videoclipe na época), a longa Suzie Q (que inspiraria a cantora Suzi Quatro poucos anos mais tarde na escolha de seu nome artístico), dentre outras canções fantásticas, que, embora mais puxadas no rock psicodélico, têm já muitos elementos do southern e swamp rock que a banda seguiria com mais firmeza em lançamentos posteriores, como dá para sentir em faixas como a própria Suzie Q e 99 ¹/².
A edição de 40 anos de 2008 trouxe ainda duas faixas gravadas ao vivo em Fillmore a 14 de março de 1969, mostrando a energia da banda desde seus primórdios ao vivo. Além dessas, uma gravação que ficara só no single Porterville, além de uma gravação não utilizada de Before You Accuse Me.
Bayou Country (5 de janeiro de 1969)
01 - Born on the Bayou
02 - Bootleg
03 - Graveyard Train
04 - Good Golly Miss Molly (Little Richard cover)
05 - Penthouse Pauper
06 - Proud Mary
07 - Keep on Chooglin'
Bônus
08 - Bootleg (alternate take)
09 - Born on the Bayou (ao vivo em Londres, 28/09/1971)
10 - Proud Mary (ao vivo em Stockholm, 21/09/1971)
11 - Crazy Otto (ao vivo em Fillmore, 14/03/1969)
A intro marcante com as guitarras dos irmãos Fogerty em Born on the Bayou já anuncia o início de uma revolução sonora. Na mesma época em que outros monstros do gênero como The Allman Brothers Band e Lynyrd Skynyrd estavam surgindo, CCR trazia com esse disco alguns dos principais elementos sonoros que marcariam pra sempre a banda. Embora não tão marcante quanto os discos que viriam a seguir, Bayou Country possui ótimos momentos, em especial a celebrada Proud Mary, regravada pouco depois por Elvis Presley e pelo (então) casal Ike e Tina Turner, numa versão que até hoje é impactante demais no mundo do rock.
Em 2009 o disco foi relançado com uma versão alternativa de Bootleg, mais três músicas captadas de apresentações diferentes, uma delas a raríssima instrumental Crazy Otto, que lembra bastante o que seria a blueseira Graveyard Train.
Curiosidade: Esse disco é o primeiro da banda a aparecer no livro 1001 Discos para Ouvir Antes de Morrer. Os outros foram o Green River e o Cosmo's Factory.
Green River (3 de agosto de 1969)
01 - Green River
02 - Commotion
03 - Tombstone Shadow
04 - Wrote a Song for Everyone
05 - Bad Moon Rising
06 - Lodi
07 - Cross-Tie Walker
08 - Sinister Purpose
09 - The Night Time Is the Right Time (Nappy Brown cover)
Bônus
10 - Broken Spoke Shuffle [*]
11 - Glory Be [*]
12 - Bad Moon Rising [Live in Berlin, 16/09/1971]
13 - Green River/Susie Q [Live at Stockholm, 21/09/1971]
14 - Lodi [Live in Hamburgo, 17/09/1971]
Aqui sim um disco de grandes sucessos, cometido poucos meses depois de Green River (e esse ano ainda tem mais um!). Difícil escolher só um som genial para selecionar aqui, já que desde a faixa-título (que posteriormente inspirou o nome da banda de pré-Grunge que depois formaria a Mudhoney e a Mother Love Bone - que viraria Temple of the Dog e depois Pearl Jam), o supersucesso Bad Moon Rising e as inesquecíveis Tombstone Shadow, Lodi e Commotion. O material de relançamento ainda nos mandou as raríssimas Broke Spoke Shuffle (instrumental que serviu de base para a posteriormente lançada Cotton Fields) e Glory Be (que remete bastante a outra faixa que saiu depois, Fortunate Son), além de mais gravações ao vivo da banda, dessa vez todas de 1971.
01 - Down on the Corner
02 - It Came Out of the Sky
03 - Cotton Fields (Lead Belly cover)
04 - Poorboy Shuffle (instrumental)
05 - Feelin' Blue
06 - Fortunate Son
07 - Don't Look Now
08 - The Midnight Special (som tradicional)
09 - Side O' the Road
10 - Effigy
Bônus
11 - Fortunate Son [Live in Manchester, 01/09/1971]
12 - It Came out of the Sky [Live in Berlin, 16/09/1971, aparece também em Live in Europe]
13 - Down on the Corner [jam com Booker T.& the M.G.'s em 1970]
Final de 1969 e a banda simplesmente não parava. Seguindo os passos dos Beatles, que lançaram seu "Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band" em 1967 como uma espécie de "banda fantasia" de si mesmos, a banda criou em Down on the Corner seus próprios personagens, a banda do Willy e seus Pobre Rapazes, fazendo um som bem curioso instrumental Poorboy Shuffle usando os instrumentos em que aparecem na capa e contracapa do disco (John com a harmônica, Tom com o violão, Stu com o baixo de bambu - washtub bass - e Cosmo com o washboard). Fortunate Son foi outro grande sucesso da banda, uma canção de protesto contra a guerra do Vietnã, a primeira aliás das músicas dedicadas a esse assunto antiguerra - embora a única realmente confirmada como sobre o assunto de fato.
01 - Ramble Tamble
02 - Before You Accuse Me (Bo Didley cover)
03 - Travelin' Band
04 - Ooby Dooby (Dick Penner cover)
05 - Lookin' out My Back Door
06 - Run Through the Jungle
07 - Up Around the Bend
08 - My Baby Left Me (Arthur Crudup cover)
09 - Who'll Stop the Rain?
10 - I Heard It Through the Grapevine (Gladys Knight and the Pips cover)
11 - Long as I Can See the Light
Bônus
12 - Travelin' Band [Remake Take][*]
13 - Up Around the Bend [Live in Amsterdam, 10/09/1971]
14 - Born on the Bayou [jam com Booker T.& the M.G.'s em 1970]
Indubitavelmente o disco de maior sucesso da banda, com sua capa icônica tirada na "Fábrica do Cosmo" (a garagem de sua casa), tem realmente toques de rock de garagem, com uma variedade sonora incrível, trazendo elementos de R&B, soul, country/folk rock, psicodelia, rock'a'billy, hard rock, enfim, tudo o que fazia o swamp rock da banda junto. Diversos covers, todos muito bem executados, incluindo ai a incrível I Heard it Through the Grapevine (que ficaria mais conhecida na voz de Marvin Gaye e também da banda de rock cristã 9th Street). A versão arrastadíssima dessa canção tornou-se uma viagem épica e genial. Mas o maior destaque aqui vai para a inesquecível Who'll Stop the Rain, uma canção que sua interpretação chega as raias do lendário, com quem diga que é uma crítica velada à Guerra do Vietnã até quem atribua a faixa a chuva que caiu no festival de Woodstock durante a apresentação da banda (interpretações essas que também iriam pouco depois, na mais lembrada "Have You Ever Seen the Rain").Pendulum (9 de dezembro de 1970)
01 - Pagan Baby
02 - Sailor's Lament
03 - Chameleon
04 - Have You Ever See the Rain?
05 - (I Wish I Could) Hideaway
06 - Born to Move
07 - Hey Tonight
08 - It's Just A Thought
09 - Molina
10 - Rude Awakening #2 (instrumental)
Bônus
11 - 45 Revolutions Per Minute, Pt. 1 [*]
12 - 45 Revolutions Per Minute, Pt. 2 [*]
13 - Hey Tonight (Live em Hamburgo, 17/09/71)
Disco mais conhecido da banda, mais pelo single famosíssimo "Have You Ever Seen the Rain", é o disco mais puramente CCR da banda, sem nenhum cover, mas também é um disco onde inseriram bastante teclados e até um saxofone, tocado pelo John em pessoa, além de marimbas e outros instrumentos diferenciados que podem ser conferidos por exemplo na faixa 2 "Sailor's Lament". A instrumental Rude Awakening #2 fecha o disco com um toque fora de série de psicodelia, bem como as bônus 45 RPM parte 1 e 2 tem uma pegada mais de música concreta na linha da "Revolution 9" dos Beatles - inclusive a primeira parte contém um trecho de uma entrevista com a banda em que o John dar algumas explicações sobre o nome da banda. Na real, é muito bizarro de verdade os dois sons haha.
Tristemente, a despeito do sucesso absoluto do single Have You Ever Seen the Rain (que, na real, não é sobre a Guerra do Vietnã, e sim sobre o conflito crescente entre John e seu irmão Tom), esse foi o último disco da banda a contar com o Tom Fogerty, que, após várias brigas com o irmão, saiu em carreira solo (inclusive John e Tom tristemente não se falariam mais regularmente, nem mesmo no leito de morte do Tom, daí dá pra ter uma ideia do quão severa foi a briga deles), prenunciando o fim prematuro da banda dois anos mais tarde.
Curiosidade: Have You Ever Seen the Rain ganhou diversas versões em línguas diferentes. Em espanhol tiveram títulos curiosos como "Cerca de Ti", "¿Quien Va a Perder?", "Ven a Ver Llover", "Gracias al Sol" e "Quiero Saber", mas em Português que o caso é mais curioso: The Fevers com Não Devo Mais Ficar, Tchê Boys com Eu Não Sei, Paulo Ricardo com Eu Não Devo Mais Ficar, e a mais curiosa de todas, a cantora gospel Thalyta com "Certeza". Sim, tem uma versão GOSPEL de Have You Ever Seen the Rain!
01 - Looking for a Reason
02 - Take it Like a Friend
03 - Need Someone to Hold
04 - Tearin' Up The Country
05 - Someday Never Comes
06 - What Are You Gonna Do?
07 - Sail Away
08 - Hello Mary Lou (Ricky Nelson cover)
09 - Door to Door
10 - Sweet Hitch-Hiker
John Fogerty uma vez falou a revista Rolling Stone em 1976 que a CCR lançou APENAS SEIS ÁLBUNS, nomeando um por um, e NÃO contando com Mardi Gras. Ele deu uma resposta acerca disso, que esse álbum não seria realmente da banda em si, apesar de conter mais participações de Stu e Cosmo nas composições, tendo John participado somente da composição de Lookin' For a Reason, Someday Never Comes e o último grande single da banda, Sweet Hitch-Hiker. Aliás... não só da composição: ele antou somente nessas três músicas e no cover de Hello Mary Lou (e de uma maneira notoriamente burocrática, diga-se de passagem), nos restando a estranha experiência de ouvir canções cantadas por Stu e Doug. Sim, as faixas compostas por eles foram cantadas por eles, devido conflitos notórios com o John. Bem a lá Beatles nos últimos anos de suas carreiras como banda ou a RPM no álbum "Quatro Coiotes", a CCR se arrastou como pôde nesse último disco, comprovando que eles já não eram uma banda de fato aqui mesmo.
A despeito desse quadro desesperador e terminal, até que o disco feito pelo agora trio saiu-se bem musicalmente para mim, mas não o suficiente para crítica e público, que acompanharam a banda nessa decadência e deram a eles o direito de seguirem em frente sem serem como banda mais.
Ouvir também:
*Live in Europe (1973) - Gravado entre 4 a 28 de setembro de 1971, um material raro por documentar bem a banda já como trio;
*The Concert (1980) - Gravado na Arena Oakland-Alameda Couty Colliseum, em 31 de janeiro de 1970;
*Live at Woodstock (2019) - Sons da apresentação da banda a 17 de agosto de 1969, no afamado festival de Woodstock.
Ver também:
*Woodstock: Three Days of Peace and Music (1994): Box-set de quatro discos contendo músicas de todos os artistas que participaram do festival, incluindo a CCR.
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